O Ribeiro de São Pedro
Tive em 2007 o prazer de conhecer uma área natural extremamente particular e fascinante, o vale do Ribeiro de São Pedro em São Pedro de Moel, Marinha Grande. A natureza atípica da sua diversidade biológica no contexto da região envolvente e a constante pressão humana excessiva levam a que aqui escreva algumas linhas sobre este local tão fascinante.
Esta área que se estende ao longo de cerca de 7km, apresenta características naturais verdadeiramente únicas no contexto de toda a região envolvente. Do ponto de vista hidrológico,uma das características mais distintivas, no contexto das bacias hidrográficas de pequena dimensão que caracterizam a região, é o de apresentar água corrente e abundante ao longo do ano. Esta situação é ainda engrandecida por um conjunto de nascentes existente nas suas margens, com contributos mais ou menos regulares, que têm origem na elevada permeabilidade das areias que circundam o vale. Estas nascentes, várias delas transformadas em fontes, originam a formação de pequenos riachos, que confluem no ribeiro principal após algumas dezenas de metros de extensão.
A vegetação arbórea ripícola e sua circundante é caracterizada por espécies dominantemente não nativas do nosso país. Este facto que infelizmente cada vez mais caracteriza a paisagem natural portuguesa apresenta-se para este local como um verdadeiro paradoxo. De entre as que aqui ocorrem destaca-se a presença do eucalipto (Eucaliptus sp.)e de várias espécies de acácias (Acacia sp.). A acácia, um género que possui várias espécies invasoras no nosso país (e legalmente reconhecidas como tal), tem implicado impactes ecológicos inegáveis em muitos locais em virtude dos extensos mantos que forma e consequente erradicação da vegetação nativa (veja-se por exemplo no Parque Nacional Peneda-Gerês, ou na área envolvente a este vale). As espécies deste género aparentam, no entanto, estar em relativo equilíbrio com o ecossistema, muito em virtude certamente de uma continuada acção controladora humana, não sendo reconhecíveis grandes formações arbustivas, excepto em algumas vertentes mais afastadas recentemente sujeitas a desflorestação. Os eucaliptos, muitos de extraordinário desenvolvimento vertical, não parecem também manifestar qualquer comportamento invasor. Estas árvores em conjunto com um rico mosaico de outras espécies, algumas nativas e de elevado interesse para a conservação, como o loureiro(Laurus nobilis),o ulmeiro (Ulmus minor) ou o carvalho-negral (Quercus pyrenaica), formam um coberto bastante denso. Esta característica ajuda a tornar único este vale comparativamente ao contexto envolvente. A elevada densidade do coberto reduz a insolação junto ao solo, atenuando a temperatura, retendo a humidade, aumentando os períodos de permanência das águas superficiais pouco profundas e impedindo o desenvolvimento de espécies vegetais heliófitas, como as silvas (Rubus sp.). É sobretudo o contributo desta característica que permite a existência de elevadas abundâncias de espécies de flora tão particulares como o feto-real (Osmunda regalis) (foto 1) ou a gilbardeira (Ruscus aculeatus).
A água, embora não tenha efectuado qualquer tipo de análise além da visual, aparenta boa qualidade sendo límpida e sem formação de espumas, o que não deixa de ser louvável considerando o cariz marcadamente industrial que caracteriza o Concelho e dentro do qual se situa a maioria da bacia hidrográfica do Ribeiro. Esta percepção visual é ainda confirmada pela presença de peixes como a rara lampreia-de-rio (Lampetra planeri) (foto 2), o ruivaco (Chondrostoma oligolepis) (foto 3) ou a enguia (Anguilla anguilla) e pela elevada abundância de algumas outras espécies consideradas excelentes bioindicadores como as libelinhas Calopteryx haemorrhoidalis. A densidade desta última nesta área é, de resto, das mais elevadas que já tive oportunidade de presenciar.
A riqueza da fauna aparenta ser muito elevada sobretudo pela forma com que contrasta com a existente nas áreas envolventes. Aqui ocorrem algumas espécies marcadamente associadas às áreas montanhosas situadas mais a Norte no país. Exemplo disso é a rã-ibérica (Rana iberica), uma espécie endémica da Península Ibérica que se distribui quase exclusivamente no seu quadrante Noroeste. O Ribeiro de São Pedro apresenta-se como o habitat de um núcleo populacional isolado e com a menor extensão que se conhece para esta espécie. Esta é sem dúvida uma ocorrência que representa um elevado contributo para a diversidade biológica da região. Nas aves há a destacar a ocorrência de guarda-rios (Alcedo atthis), alvéolas (Motacilla sp.), chapins (Parus sp.) e inúmeros outras, conjugando espécies marcadamente associadas a habitats ripícolas com outras típicas de áreas florestais densas.
Os levantamento da riqueza biológica para a área são aparentemente reduzidos, ou no mínimo pouco divulgados, o que implica que muita da diversidade existente neste vale possa não ser ainda conhecida ou devidamente valorizada. Deixo aqui o repto a que esse trabalho seja desenvolvido ou divulgado e sobretudo que sirva para a a salvaguarda da diversidade biológica da área.
posted: 01-05-2008 by: César Capinha